domingo, 17 de janeiro de 2010

Soldado alado

Lá fora chove... Sei porque ouço baterem os pingos na janela do meu quarto. Queria sentir a água acariciar minha pele, provar um pouco do frio que a brisa noturna trás. Seria tão fácil saciar meu desejo, apenas duas portas até a sacada e alguns passos até o beiral, e estaria vulnerável a minha ânsia, tal como um guerrilheiro estaria à sua morte. Reluto, não o faço... Assim, simples desse jeito... Não caminho até aonde o céu nublado me veja.
A grandeza embalante do que me cerca é mais forte, me amedronta. As luzes do centro da cidade vêm de longe sendo vagarosamente consumidas pela escuridão até virarem sombras de vaga-lume que cintilam dançando o coaxar das rãs e o chiar dos grilos, brindando em um suspiro aliviado o sono das vidas, o repousar do caos. Reina a serenidade. Quem sou eu para quebrá-la?
Meus olhos trincados de negar vontade buscam refúgio entre quatro paredes, transito em parafuso pelo piso de madeira, andando em círculos sem querer cessar. Sei onde minhas pernas querem me levar, não dou trégua, temo o mundo e ligo o ar condicionado. Não o faço por calor, mas por silêncio... Rezo para que seu ruído finde as vozes da noite, quero só a paz.

E, no entanto, a cada rota de fuga que busco, percebo voltar a um beco sem saída; A maçaneta me encara, eu desvio o olhar. O vento vem trazer perturbação. Assopra forte e atira chuva contra minha janela, emudece o compressor, não há mais paz. E que ironia nessa hora eu descobrir que quando se trilha um círculo, o único destino é o estonteamento.
Cambaleio até o interruptor. Desligo a luz por precaução... Não sei o quê pode estar me observando. A falta de luz me cega, chego próximo a janela, e com dedos trêmulos destravo suas abas. Caio em mim quando pelas brechas recém abertas entra o inimigo destemido. Dois pares de asas velozes, grandes olhos vidrados em mim... Suas armas estalam e atiram para ferir-me sem dó. Corro em formas mil, hei de encontrar uma saída! Quadrados, triângulos, espirais e esperanças. Meu dedos sangram, roi as unhas até arrancar a pele. Mato a goles férreos o rubro visco da vida, e de repente não há mais madeira sob meus pés... Corri tanto que cavei um buraco, estou agora em terra batida e cascalho. Trincheira de guerra... Estou em guerra. O que eu ouço não são pingos d’água, são flechas de fogo buscando minha pele, clamando o saciar da fome de cortar meu couro, e cantando em coro a brasa e a prata.

Deixo o desespero me dominar. Há um exército inteiro ao redor de minha fortaleza, e sou apenas um homem. Em minhas mãos tenho a honra de todos os meus companheiros mortos em batalha, nada além disso, não tenho armas.
Abaixo a cabeça buscando sonhar uma saída; Não sou só um homem, sou o sobrevivente! Sou o ultimo cavaleiro, a esperança derradeira.
A honra agora é uma bomba relógio, corro para minha antiga rival, a maçaneta, e unindo forças a ela, liberto-me de meus temores. Feito búfalo errante ataco a porta de vidro que me separa do campo de batalha, numa única investida arrebento-a e rolo sobre seus destroços. O sangue é ferro, protege minha pele.
Tenho, tal como a vida, somente uma chance de acertar meu golpe. Miro então o principal vilão, o berço de escuridão e flamas que rege todo o batalhão da noite. Galopeio pela sacada, pisando à pele nua sobre cacos de vidro e sangue, arrebento a tela do beiral e vôo rumo ao exército do Céu. Soldado alado se apresentando, senhor!


17/01/10

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