quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Janela de Passagem

(parte 6)

Naquele segundo andar andava, impacientemente, Fernando.
Único filho que havia puxado Seu José na pele clara. Mas outro filho que queria ir mais do que além, sair daquela sua janela. Iria contra a vontade de sua mãe; sairia um pouco para fazer cinema, estava a dois dias do seu ‘passe de liberdade’, mas as malas já estavam feitas, esperando por ele na beira da porta.
Impaciência e indecisão deixavam com que continuasse.
Mais passos...Cadeira, mesa, gaveta, papel, caneta, fotografia.
Deixaria o sudeste com rumo ao sul; deixaria o amor com rumo a liberdade.
Escrevia agora uma carta, admirando as estrelas por aquela janela imensa do seu quarto.
Havia um papel com apenas algumas frases curtas; frases dirigidas para uma menina conhecida por Pequena, que morava no fim da rua, em cima do bar.
Dizia que tinha que ser rápido, e que tudo o que ele teria a dizer ela já sabia, mesmo que soubesse apenas de um jeito duvidoso.
Completou as frases com palavras bonitas, e terminou a carta com um ‘até breve’.
Voltou a olhar as estrelas por aquela imensidão escura, deixou seus olhos passearem pelo vácuo transposto pela janela, e agora via apenas o brilho do quarto da pequena no fundo, do outro lado da quadra. Tudo, enquanto pensava: ‘Até breve quando, pequena?’
Largou a caneta; deixou a janela, dobrando o papel e colocando no meio uma fotografia dos dois; pegou as malas e seguiu em rumo as escadas, enfrentaria agora o último porém: Morena.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Soldado alado

Lá fora chove... Sei porque ouço baterem os pingos na janela do meu quarto. Queria sentir a água acariciar minha pele, provar um pouco do frio que a brisa noturna trás. Seria tão fácil saciar meu desejo, apenas duas portas até a sacada e alguns passos até o beiral, e estaria vulnerável a minha ânsia, tal como um guerrilheiro estaria à sua morte. Reluto, não o faço... Assim, simples desse jeito... Não caminho até aonde o céu nublado me veja.
A grandeza embalante do que me cerca é mais forte, me amedronta. As luzes do centro da cidade vêm de longe sendo vagarosamente consumidas pela escuridão até virarem sombras de vaga-lume que cintilam dançando o coaxar das rãs e o chiar dos grilos, brindando em um suspiro aliviado o sono das vidas, o repousar do caos. Reina a serenidade. Quem sou eu para quebrá-la?
Meus olhos trincados de negar vontade buscam refúgio entre quatro paredes, transito em parafuso pelo piso de madeira, andando em círculos sem querer cessar. Sei onde minhas pernas querem me levar, não dou trégua, temo o mundo e ligo o ar condicionado. Não o faço por calor, mas por silêncio... Rezo para que seu ruído finde as vozes da noite, quero só a paz.

E, no entanto, a cada rota de fuga que busco, percebo voltar a um beco sem saída; A maçaneta me encara, eu desvio o olhar. O vento vem trazer perturbação. Assopra forte e atira chuva contra minha janela, emudece o compressor, não há mais paz. E que ironia nessa hora eu descobrir que quando se trilha um círculo, o único destino é o estonteamento.
Cambaleio até o interruptor. Desligo a luz por precaução... Não sei o quê pode estar me observando. A falta de luz me cega, chego próximo a janela, e com dedos trêmulos destravo suas abas. Caio em mim quando pelas brechas recém abertas entra o inimigo destemido. Dois pares de asas velozes, grandes olhos vidrados em mim... Suas armas estalam e atiram para ferir-me sem dó. Corro em formas mil, hei de encontrar uma saída! Quadrados, triângulos, espirais e esperanças. Meu dedos sangram, roi as unhas até arrancar a pele. Mato a goles férreos o rubro visco da vida, e de repente não há mais madeira sob meus pés... Corri tanto que cavei um buraco, estou agora em terra batida e cascalho. Trincheira de guerra... Estou em guerra. O que eu ouço não são pingos d’água, são flechas de fogo buscando minha pele, clamando o saciar da fome de cortar meu couro, e cantando em coro a brasa e a prata.

Deixo o desespero me dominar. Há um exército inteiro ao redor de minha fortaleza, e sou apenas um homem. Em minhas mãos tenho a honra de todos os meus companheiros mortos em batalha, nada além disso, não tenho armas.
Abaixo a cabeça buscando sonhar uma saída; Não sou só um homem, sou o sobrevivente! Sou o ultimo cavaleiro, a esperança derradeira.
A honra agora é uma bomba relógio, corro para minha antiga rival, a maçaneta, e unindo forças a ela, liberto-me de meus temores. Feito búfalo errante ataco a porta de vidro que me separa do campo de batalha, numa única investida arrebento-a e rolo sobre seus destroços. O sangue é ferro, protege minha pele.
Tenho, tal como a vida, somente uma chance de acertar meu golpe. Miro então o principal vilão, o berço de escuridão e flamas que rege todo o batalhão da noite. Galopeio pela sacada, pisando à pele nua sobre cacos de vidro e sangue, arrebento a tela do beiral e vôo rumo ao exército do Céu. Soldado alado se apresentando, senhor!


17/01/10

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Se

Se você me amasse iria atrás de mim na primeira oportunidade.
Se você me amasse iria até o inferno para tentar ficar ao meu lado.
Se você me amasse atravessaria quaisquer fronteiras para olhar-me nos olhos.
Se você me amasse faria de tudo para me roubar um sorriso.
Se você me amasse faria o impossível parar me convencer de tal amor.
Se.
E só se.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Labirinto

Além de cada passo, há você...
E é pouco todo o espaço, pra dizer
Que nesta vil tortura, quedo eu,
Ao repetir a trilha de um Teseu

Que dos raios de luz, só teve o breu
Que céus, por cruel pena, fez-se meu;
E ante a pior fera, pôs-me a ter,
Pior que um minotauro ou outro ser,

Nas heras que ferroam diamantes
Do tenro peito dos loucos amantes,
O ardor qual eu, caído herói, consinto.

Sem lã nem fuga, não renego a mim
O sufoco dos muros de marfim
De amor nefasto que dói; Labirinto.


03/12/09

sábado, 28 de novembro de 2009

Viva la Revolución!

Eu estou cansada, é! Quer saber? Cansei de ouvir por aí que mulher só é inteligente se sabe dirigir e fazer cálculos de matemática avançada, por isso começarei um movimento contra tamanhas asneiras!
Mulher inteligente é muito mais que isso.
Mulher inteligente tem um bom papo; facilidade com as palavras e um vocabulário extenso; tem argumentos; está sempre lendo um bom livro e fala, pelo menos, umas três línguas distintas fluentemente.
Ela sabe diferenciar uma escala de dó de uma de sol; ouve uma boa música e não um punhado de baixarias; vai ao teatro sempre que consegue; dá ênfase às poesias; e gosta de cinema - sem idolatrar Kubrick, mas sabendo que até uma comédia boboca tem seu valor.
É descolada e moderninha; conhece o mundo; já passou por infinitas situações, e tem o emprego fixo dos sonhos.
Portanto, nós, mulheres, precisamos nos unir e dizer para muta gente que mulher é tudo isso e muito mais (às vezes até encara um cálculo de matemática avançada)! Por um mundo menos machista.
E tenho dito.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Insonia

O ser silencioso apenas é angustia... Personifica na barba mal feita o desejo de ser só, enquanto a garganta, atada num nó, faz do ser silencioso somente ser o nada.
O nó na garganta desata, e ata o peito a bater.
Um suspiro rompe o silêncio, põe-se acelerado, pensamentos a correr.
E fulgentes pétalas vermelhas, chovem como o fogo do ontem e do amanhã...
Tempestade me afoga, vento corta a alma... Alma cortada, corta a vida.
Cessa o ar, a veia, o sonho... Resta ao mundo apenas corpo... Jardins noturnos, nunca mais.
A cafeína consumiu o fechar de meus olhos.
O ser abatido ri sozinho da vida. As fotografias correm sua mente, deixando-a com tom sépia, e cheiro de armário velho.
A cabeça despenca sobre a mesa de madeira... A luminária balança, os papéis escorregam ao chão, e os olhos se fecham pela ultima vez.
O silêncio é quebrado novamente.
- Apaga a luz amor... Vem deitar aqui na cama que amanhã ainda é terça, e tu bem cedo te levanta e pega rumo pro trabalho.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Eu não ligo mas me irrito (parte1)

Eu não ligo mas me irrito.
Olho ao meu redor, observo as pessoas atentamente e me sinto extremamente irritada com quem não tem nada a oferecer - seja um ombro amigo, uma ajuda, amor ou uma teoria revolucionária. Com quem não tem nada na cabeça se não um vazio.
Mundinho medíocre esse o meu, que vivo rodeada de pessoas que mais s epreocupam em comentar sobre todas as festas que foi naquela semana e as roupas que comprou na ponta de estoque. Por que será que tem gente que SÓ fala disso? Não me chamou para a festa e não comprou roupa para mim... não ligo! Tem também os que querem só falar de quem "pegou" noite passada e de que "bebeu todas e ficou muito louco". E os que só sabem falar de si mesmos? Aterrorizante! Tanto narcisismo para nada! Ou eles realmente pensam que nós nos interessamos por tudo o que aocntece com eles? Lamento, só. E ainda tem gente que tudo o que fazer da vida é fofocar e viver pelos outros. E é sempre uma fofoca inútil, que não muda a realidade de ninguém! "Você viu? A maricota comprou um carro novo!" Ah é? Bom para a Maricota!
O problema não é falar de festas, falar da noite passada e suas aventuras, falar de si mesmo e fazer fofoca. O problema é falar somente de festas e fofocas, e não saber dialogar sobre qualquer outro assunto que seja menos dispensável.
Pessoal alienado não faz meu gênero... não ligo mas me irrito.